Diante da violência, embarco numa questão moral e ética complexa: agir ou fugir?

Diante da violência, embarco numa questão moral e ética complexa: agir ou fugir?

Era noite na periferia do extremo leste de São Paulo, Poá. Dirigia na moral. De repente, vejo ao lado seis homens espancando um jovem com chutes, socos e pauladas. Indefeso, ele tentava proteger o seu rosto, que já estava inchado e repleto de hematomas. Fiquei espantado com a cena, que, certamente, terminaria num assassinato. Pensei em acelerar o carro e sair vazado da cena do crime. Quando fito melhor, reconheço: o jovem que estava prestes a morrer era meu vizinho.

Embarco numa questão moral e ética complexa. Agir ou fugir? Eu não estava sozinho. Recém-casado, partilhava da companhia da minha família. Meus neurônios começaram a fritar. Proteger a minha família, fugindo, ou tentar salvar o jovem.

Sinceramente, quis fugir, sabe? Como a maioria que passava pela rua fazia. Mas, pensei, que se ele fosse assassinado, como eu conseguiria olhar nos olhos dos seus familiares? Como iria ao enterro? Como diria: “meus sentimentos?”. E pior, como seria capaz de dormir à noite? Meu instinto falou mais alto. Olhei pra minha esposa, e, na coragem ela disse: “Vai, amor. Salva ele”.

Eu dirigi em direção ao motim. Parei o carro e de lá de dentro usei toda a autoridade social, que o trabalho em periferias e favelas me concedeu, e gritei: “Acabou. Já era. Ninguém bate mais nele. Façam isso por mim, já era. Vou levar ele embora”. Foi tenso. Havia muito ódio naquele metro quadrado. O pior podia acontecer. Mas, os agressores finalizaram a pancadaria. Eu abri a porta do carro e puxei o jovem pra dentro. Ele sangrava, estava grogue, mas a salvo.

Pisei fundo pro hospital e busquei sua família para acompanhá-lo. Em seguida fui pra casa com minha esposa. Durante a noite inteira, aquela cena pesada de espancamento, gritos, sangue, repassava sobre nossa imaginação e não conseguimos dormir. No entanto, nossa consciência estava limpa. E no amanhecer do dia, não fomos para o velório.

Neste enredo bárbaro e real que vivi, tirei uma lição. Se você pode salvar alguém e não o faz, automaticamente, deixa de conhecer o melhor que existe em você. Todo dia alguém morre, aliás, todo dia cerca de 150 pessoas são assassinadas no Brasil, 70% deles negros. Como podemos ir dormir tranquilamente com esses dados?

E mais. Todo dia milhões de reais são desviados dos cofres públicos, para que políticos mantenham suas amantes com bolsas da Louis Vuitton? Todo dia, alguém, em estado crítico, passa horas na fila de um hospital para ser atendido. Todo dia, ficamos longe de bater às nossas metas educacionais, permitindo que nossos jovens saiam do ensino médio, engrossando a lista dos analfabetos funcionais.

Se você estiver na pegada de salvar alguém, neste Brasil violento, que mata mais do que qualquer outra guerra do mundo, para cada dia do ano, você terá uma causa para atuar. Agora, se o seu lance for apenas cuidar do próprio umbigo e fazer dinheiro, para cada dia do ano, haverá uma desculpa pra você dar.

Aqui vai um aviso: assistir passivamente a este longa-metragem da desigualdade, injustiça e violência, lhe trará sérios problemas de consciência e, pior, vai te fazer ir à qualquer momento num velório. E será duro dizer: “Meus pêsames”. Fica aqui o pedido da minha esposa. “Vai, amor. Salva ele”

 

— Edu Lyra, Fundador do Gerando Falcões

One thought on “Diante da violência, embarco numa questão moral e ética complexa: agir ou fugir?

  1. WilliamSync - 6 de junho de 2016 at 00:49

    I am so grateful for your forum topic.Much thanks again. Will read on… Servoss

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